O Movimento dos Sem Palco (MSP) aguarda uma resposta da Secretaria Municipal de Cultura (SMC), desde o dia 26/03, quando protocolou uma pauta de reivindicações, entre as quais pede um evento como uma "Virada Paralela", para abrir espaço para artistas independentes durante a Virada 2026. O MSP surgiu no contexto da fase de inscrições para a Virada Cultural e já agrega cerca de 800 artistas nacionais, todos excluídos das regras clássicas dos "Hits & Trends”.
Regras de mercado como a clássica pergunta "vende mais porque é fresquinho, ou é fresquinho porque vende mais?" estão no lastro das programações de grandes eventos midiáticos, mesmo aqueles pagos pelo dinheiro público, como a Virada Cultural de São Paulo.
As atrações vão rechear a Virada 2026, e por 48 horas tomarão conta da gigante cidade de São Paulo, sempre no penúltimo fim de semana de maio. Os primeiros "Hits & Trends", já estão sendo anunciados pela Secretaria Municipal de Cultura (SMC).
Exclusão começa no âmbito digital
No mês de março/2026, quando uma plataforma da internet era o meio para o cadastramento e inscrição dos artistas interessados em participar da Virada, surgiu o Movimento dos Sem Palco (MSP). Dificuldades básicas da plataforma e a solicitação de documentos sem propósito para um CPF de artistas foram descritas por muitos dos que tentaram se cadastrar para a Virada 2026.
"Eu vinha tentando me cadastrar há muitos anos, pelo menos nos últimos 15 anos, sempre sem sucesso e sempre sem ter a clareza sobre os critérios de seleção. Além da solicitação de documentos estranhos ao nosso universo, a gente fica sem saber até se o cadastro foi efetivamente realizado na plataforma", exclama Walter Egea, empreendedor artístico e músico. "Nunca recebemos nem um protocolo sequer dessa inscrição e só ficamos sabendo que não fomos contemplados quando sai a lista oficial da Virada. Outra recorrência é a exclusão de artistas independentes", se indigna.
Neste ano, a indignação ganhou voz quando, organicamente, Egea resolveu lançar o Movimento dos Sem Palco (MSP), uma expressão com a proposta política que tem por propósito reunir uma verdadeira legião de artistas independentes que, por inúmeras razões, sempre estão excluídos, porque supostamente não têm "hits", e por consequência, não rendem "trends", que são uma espécie de "token", uma nota ou moeda virtual e que atribui valor de mercado a "Hits & Trends".
"É um círculo vicioso que exclui os artistas independentes que estão na base da arte brasileira, impondo uma barreira cruel e quase instransponível", manifesta Egea. "Não somos ingênuos a ponto de não compreender as regras do mercado artístico clássico, que vigoram no planeta. A nossa exclamação é POR QUE o dinheiro público, que paga um evento público e com vistas à cultura e à arte nacional, acaba seguindo a mesma lógica midiática e de mercado, inclusive pagando verbas milionárias para os "Hits & Trends" de sempre?", questiona Egea.
Hits & Trends: lastros de curadoria para atrações de massa
O que se constata é que a "ditadura" do "Hits & Trends" já ganhou a Virada Cultural 2026, haja vista os primeiros nomes anunciados oficialmente como parte da programação. Thiaguinho, Mariana Sena, Joelma e Luiza Sonza, esta última, que na Virada de 2025, arrecadou a bagatela de R$ 600 mil, com apenas uma apresentação eletrônica, são nomes confirmados. "Nesta hora, gosto não se discute... o que a gente discute e provoca que a sociedade o faça é justamente os montantes financeiros que, com dinheiro público ou de renúncia fiscal, são usados para retroalimentar regras de mercado que excluem quem mais zela pela cultura e arte nacional, que são os artistas independentes", declara Sandra de Angelis, jornalista e empreendedora do Programa Disruptivos Culturais. "A pegadinha da curadoria de conteúdo se enrosca nas tramas "Hits & Trends" para atrair e engajar públicos, em detrimento da ARTE e da CULTURA nacional".
O que são "Hits & Trends"
Hits referem-se a conteúdos, produtos ou experiências que já demonstraram um sucesso significativo. Estes são os sucessos garantidos, que atraem públicos e geram interesse graças à sua popularidade consolidada.
Trends, por outro lado, são tendências emergentes que refletem mudanças nas preferências do público e nas dinâmicas culturais. As trends podem ser identificadas por meio de dados de consumo, comportamento nas redes sociais e feedback do público.
Lógica de curadoria questionável
Uma curadoria comercial eficaz, aquela que dá retorno de marca para investidores, se baseia nos marcadores "hits & trends" para a criação de atrações de massa que ressoem com o público. "Nossa pergunta é: Um evento público precisa, mesmo, seguir essa cartilha para um evento, cujo propósito é levar arte grátis ao público, indistintamente?", encerra Sandra de Angelis.
O Programa Disruptivos Culturais, apoia a iniciativa encabeçada por Walter Egea, pois vê ampla sinergia entre os propósitos do manifesto e os do Programa Disruptivos Culturais, lançado em outubro de 2025 a partir de uma parceria entre a Edge Mídia e Innovati. "Acreditamos naEconomia Criativa, nos valores locais e expressões artísticas plurais, como resposta social capaz de 'furar as bolhas' midiáticas, de abrir novos palcos e, por fim, promover uma verdadeira transformação social", declara Sandra de Angelis, jornalista. "As artes têm os recursos autênticos para tanto, só não podem ser confinadas em feudos e atreladas a interesses meramente comerciais. Este deveria ser o propósito da Virada Cultural!, conclui Cris Lindner, designer que juntamente com Sandra de Angelis, assina o Programa Disruptivos Culturais .

